30.9.11

A ELEGÂNCIA DE UM PARTO

eu tive a imensa alegria de ter parido duas filhas em nossa casa.

mês passado tive outra imensa alegria de acompanhar o parto domiciliar de uma amiga.

acabei de ler o lúcido artigo escrito pela dra. melania maria ramos de amorim, parto domiciliar, que reflete sobre os paradigmas do parto domiciliar.

o texto inicia-se com a citação "A humanização do nascimento não representa um retorno romântico ao passado, nem uma desvalorização da tecnologia. Em vez disso, oferece uma via ecológica e sustentável para o futuro”
(Ricardo Herbert Jones)


na sequência vemos uma emocionante foto de um parto domiciliar ilustrando um texto cheio de referencias cientificas, inteligencia ativa e muita sensibilidade.

o que eu teria a acrescentar? talvez meus pensamentos sobre a confiança na natureza.
pois estou em estado de graça pelo parto que acompanhei e por meus partos ainda tão presentes em mim.

somos seres biológicos e culturais e nossos partos fazem parte de um processo fisiológico.
e como tudo o que é fisiológico em nós, funciona melhor, se não houver interferências de controle externo.

para parir é necessário abrir mão do controle.

deixar acontecer! entregar-se aos processos que nos atravessam durante um trabalho de parto.

existe um enorme cognitivo inconsciente em ação.

no trabalho de parto, estamos lúcidas, acordadas, sentido ondas de contrações, nos dando conta de pensamentos, desejos, medos, incómodos, confortos, tudo em uma intensidade que permeia vida e morte, limite e transmutação.

nesse processo não cabe o controle racional e consciente que representa somente 5% de todo nosso processo cognitivo, porem, altamente valorizados pela cultura que estamos vivendo.

durante nosso desenvolvimento cognitivo, somos estimulados a acreditar que todo valor estão nesses 5% que a consciência alcança, mas grande parte do aprendizado passa por esses 95% de cognitivo inconsciente que são desqualificados em nossa sociedade.

assim nos tornamos seres controladores e inseguros em relação aos nossos processo fisiológicos.

distantes dessa confiança na vida, ao engravidar, a mulher (e seus familiares) imediatamente pensam em controle, controlar a gravidez, a gravida e o parto.

controle abusivo com exames excessivos durante a gravidez, intervenções e o acontecimento mais intenso de uma vida na mão de médicos e hospitais.

por isso a gravida e seus familiares se entregam na mão dos controladores da vida.

a mudança de paradigma está feita, pois se algo acontecer de errado em um parto absolutamente controlado, com direito a cesária eletiva, será considerado uma fatalidade;

se algo errado acontecer em um parto domiciliar, será considerado irresponsabilidade.

vivemos nessa ilusão do controle!

não é que não há controle, a natureza não vive no caos, porem o "controle" na natureza é indireto e a ela pertence.

tem uma historinha fictícia que humberto maturana escreveu em seu livro "a árvore do conhecimento" que é uma boa analogia.

é mais ou menos assim:

um rapaz nasceu dentro de um submarino e nunca saiu de la, ele aprendeu a comandar o submarino através da leitura de seus instrumentos e assim tornou-se um capitão muito preciso em suas manobras, sem nunca conhecer o mar e o mundo fora de seu submarino.

um dia, ao chegar perto de uma praia, foi observado por um marinheiro que trabalhava na torre da praia, esse se encantou de ver a elegância do movimento do submarino e como ele conseguia se desviar precisamente dos rochedos.

chamou o capitão pelo radio e disse: bem vindo a nossa praia e parabéns pela destreza com que navega seu submarino, com muita elegância e precisão ao desviar dos rochedos.

o capitão responde: que praia? que submarino? que rochedo? do que você está falando?



precisamos despertar o capitão dentro de nós para que nossos corpos naveguem pela vida com a elegância e a precisão que merece.

2 comentários:

Rebeca disse...

Fantástico, capitã!

Eva Cordeiro disse...

Fiquei emocionada...dura essa viagem do submarino para a praia.Excelente texto, parabéns.